duas notícias: Citius e GhostNet

do site do Público:

Erros informáticos fazem desaparecer despachos de juízes dos tribunais

Conselho Superior da Magistratura tem recebido "inúmeros" protestos de juízes, mas o ministério nega problemas graves e garante que o Citius é usado sem problemas

Despachos judiciais já desapareceram da aplicação informáticaCitius Magistrados Judiciais devido a erros no sistema. Desde Janeiro que o uso desta aplicação se tornou obrigatório para os processos cíveis, o que tem posto muitos juízes à beira de um ataque de nervos. A lentidão do sistema e o frequente bloqueio da aplicação são as queixas mais frequentes.

O Conselho Superior da Magistratura (CSM) diz que desde então "têm sido inúmeras as queixas por parte dos utilizadores juízes", mas assegura que o desaparecimento de despachos do sistema corresponde "a situações raras" relacionadas com quebras do sistema. O Ministério da Justiça nega a existência de problemas graves e insiste que a "larga maioria dos magistrados utiliza oCitius quotidianamente sem problemas".

O Tribunal Judicial de Ponta Delgada é um dos que têm sentido os problemas mais graves. "Consigno que o presente despacho foi redigido por duas vezes (após ter desaparecido do sistema, por razões informáticas que desconhecemos) e que o acesso aoCitiuspara nele o integrar foi tentado ao longo de mais de uma hora e 10 minutos, sem sucesso", lê-se num despacho de 24 de Setembro. "O mau funcionamento do sistemaCitius", acrescenta-se "vem[-se] repetindo diariamente e prejudicando o nosso desempenho".

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Mas há queixas um pouco por todo o país. "Desde o início do ano judicial [1 de Setembro], o sistema Citiusdeixou de funcionar em condições normais, o que tem vindo a prejudicar gravemente o serviço", denunciou por carta Marlene Rodrigues, juíza-presidente do Tribunal Judicial de Barcelos. A lentidão do sistema, a impossibilidade de abrir determinados documentos e de os remeter internamente para as respectivas secções (que tratam da parte administrativa) e a activação obrigatória do processador em inglês foram os principais problemas referidos. Marlene Rodrigues insiste que é uma adepta da informatização dos tribunais. "Fui das primeiras a trabalhar noCitius, em Novembro de 2007, porque acho que traz transparência", argumenta. "Mas não podem continuar a alterar o sistema sem testar previamente as mudanças", realça. "Estes erros todos não se compadecem com o volume de serviço que temos", sustenta. As últimas alterações noCitius custaram a Jorge Teixeira, juiz de círculo em Barcelos, um mês sem trabalhar na aplicação e o regresso ao papel.

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Empresa diz que encontrou dados do Estado em rede de ciber-espionagem chinesa

Um relatório divulgado esta semana afirma que informação sensível do Estado português foi roubada por uma rede informática sediada na China. Esta rede chama-se GhostNet e já em Março tinha sido alvo de um trabalho de investigadores da Universidade de Toronto, no Canadá, que concluíram que era usada para espiar computadores de mais de 100 países, entre os quais Portugal. Mas o documento levanta dúvidas.

O relatório foi publicado por uma empresa de segurança informática portuguesa, chamada Trusted Technologies e que é praticamente desconhecida. Os autores dizem ter entrado nos servidores da GhostNet e encontrado, entre outros dados, informação capaz de facultar o acesso a bases de dados do Ministério da Justiça, ficheiros sobre o sistema que gere as eleições em Portugal, documentos da Polícia Judiciária e informação sobre juízes e magistrados. A empresa diz ter uma cópia de toda esta informação, que só divulgará se existir “autorização expressa pelas entidades competentes”.

A própria Trusted Technologies enviou o documento às redacções e a instituições como a Presidência da República, a Procuradoria Geral da República, o Sindicato dos Magistrados e a Ordem dos Advogados. Hoje ao final da tarde, Bruno Vieira, engenheiro na Trusted e co-autor do relatório, disse ao PÚBLICO que não tinha tido qualquer resposta por parte destas entidades. Bruno Vieira contou que a investigação se desenrolou ao longo de cerca de seis meses e que foi motivada por notícias do início deste ano, que davam conta que vários computadores de organismos do Estado tinham sido alvo de ataques informáticos.

“Em teoria”, garantiu Vieira, a informação encontrada nos computadores chineses “põe em causa a segurança das instituições” e permite alterar bases de dados como as do Registo Predial ou até interferir com a contagem de votos numa eleição.

O PÚBLICO tentou sem sucesso contactar o Instituto de Tecnologias de Informação na Justiça, entidade que gere os sistemas informáticos associados a este ministério.

Muitos especialistas acreditam que a GhostNet possa ser operada por serviços de espionagem chineses, mas Vieira admitiu que, embora seja possível localizar geograficamente os computadores, não é possível ligá-los ao Governo de Pequim.

Já o director técnico da Symantec em Portugal, Timóteo Menezes, disse ao PÚBLICO haver casos conhecidos de redes que tentam roubar informação de computadores de organismos estatais (os EUA queixam-se frequentemente de serem espiados pela China). Mas argumentou que o relatório levanta “muitas dúvidas”, não oferece uma explicação cabal da investigação e parece ser “uma história em que se pode querer acreditar”.

Segundo a Trusted, o processo de roubo de informação implica aquilo a que se chama engenharia social – ou seja, é necessário que um utilizador (como um funcionário) abra um ficheiro num e-mail ou aceda a um site controlado pelos atacantes. Depois, a GhostNet explora vulnerabilidades e instala software malicioso, com o qual é possível controlar à distância os computadores. As máquinas infectadas são então instruídas para enviar ficheiros para os computadores da rede espiã.

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